domingo, 21 de abril de 2013

Devaneio "atípico"

E nos mocambos de nossas veias
escorre o líquido séquido da memória
- pulsante intermédio entre o acaso e a alma.

Límpidos e gritantes espasmos
suspendem os cantos líricos
que evidenciam sublimantes existências.

O amor oblíquo e obtuso,
intermitente e obscuro,
abstrai as flores de nosso abismo.

Um respiro irrompe os caminhos
de tantas flores e espinhos
no devaneio inesquecido.

Seus cabelos escorrem
por entre as cores de meu espírito:
sórdido tapete em meus delírios.

E sobre a súbita existência
os demônios em essência
exalam míticas decadências.

"Como um sangue novo / como um grito no ar / correnteza de rio / que não vai se acalmar"

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sarau no Caos


Sobre os escombros da cidade desnascida
poetas desvairados esquizofrênicos
lambuzam-se em frescos frêmitos
ejaculando versos na carniça

Plásticos / esquálidos artistas
respiram o aroma fétido da estação
mesmo sabendo que em vão
sucumbem à ordem dos fascistas

Maldita cidade-dormitório!
(re)trata seus mortos com altivez:
aromatiza de merda seus velórios
fúnebre chorume que se fez

Ainda assim, em meio aos ratos,
sobrepondo-se a tais fatos
sublimação e arte foram consumados:
Sarau no Caos, 
a construção dos resignados!

Foto: "2º Sarau no Caos" - Sueliton Lima   

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sob a cólera de Poseidon


Arquipélagos inconscientes
dotados de amor translúcido
são engolidos subitamente
pelo voraz oceano de mágoas

Assim como Tera
sobreposta entre as águas
do que sempre obtivera:
um mí(s)tico gosto
delicado e exposto -
paixão que supera
indecifrável desgosto

A saliva dessas palavras
sobre a pele detivera
que como súplica despida
despojou-se do meu corpo

E o sopro do amor 
- antes doce porto -
instaura-se no mar cinza
do nosso sacro aborto.







quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Eros & translação

uma semana
um mês
dois anos
nada se desfaz
soberano

em meio as castas
do cotidiano
seu semblante denso:
pura luz profana

conhecer um signo
-vértice súbito-
encasmurrado, assumo
sua flor púrpura
euclidiana

amor intenso
profícuo anseio
transcende insígnias
sublime enleio.















Poema LIUBLIÚ - Maiakóvski

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pudemos enfrentar domingos

E agora
eu aqui lendo 14.805 representações -
trocas estetas das carícias
mais íntimas:
tempos de céus cheirosos,
dos sorvetes gostosos que te consumiam
de forma verdadeira e sutil.

E neste mesmo momento,
encontro-me com vagalumes cegos
que iluminam meus pensamentos
e cegam meus recalques.

Que (a)caso,
deparo-me com o dia 15 de agosto
- quão sobreposto -
elefantes sobrevoam a
brancura de sua pele
como a convergência transcendente
entre seu cheiro,
seu pêlo
e a leveza daqueles balões
que flutuam levemente
sobre nossas cabeças de algodão.

Como a vida pôde alcançar
tamanho descaminho?
Éramos doces, belos e
inteligentes o bastante
para que não fadássemos
 neste umbral séquido.

 (...)

Nesta madrugada, acordei com fortes dores
no peito,
não sei se por conta dos infinitos e pensantes
ensejos que venho (es)tragando
ou se, de modo mórbido e esquálido,
meu coração está comprimindo todas as esperanças
daquele deleite sonho futuro:

família sublime, dois filhos felizes e dóceis,
eu e você acordando diariamente
em meio aos nossos anseios e corações unificados -
a maciez de nossas projeções reais.

Materializamos um mundo paralelo,
construindo edifícios (in)transponíveis
com nossas exasperadas mãos apaixonadas;
seus cabelos formavam coloridos mares
que reluziam em nosso céu de estrelas
quentes e pacíficas.

Assim como naquele filme pedante do DiCaprio,
que sempre amei e você nunca tinha visto,
[até o momento da consumação de minha falência em sua vida prática]
em que um casal de amantes metafísicos
se enclausurava em suas inconsciências 
por conta de uma desmedida resignação
com o mundo empírico -
resistência visceral, representação intensa
de um amor real e psíquico.

Mas, assim como no dilacerante desfecho deste romance analítico,
nosso mundo desmoronou, destruí
grande parte das estruturas que solidificavam nossas almas -
antes límpidas e insuperáveis sublimações.

 E nesta degenerada temporada no inferno,
totalizantes desencontros abissais
acinzentam-me no umbral de escombros decepcionantes:
um labirinto tísico, preponderante. 


Para (re)ler ao som de "Canções de apartamento" - Cícero
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cafeína

Um copo de café corriqueiro, um minuto de nadificação e uma sublimação:

“Logo após beijar suas canelas, cheirosíssimas e brancas, desatava os belos laços róseos, com toda delicadeza poética de Neruda, e passeava as pontas dos macios fitilhos doces por toda sutileza da sua pele tênue; percorri, assim, por todos os lindos e desejados corações do seu corpo sereno, atentando-me a cada contorno ameno e meigo destas belas representações que se projetam na minha psique.
Com a saliva acumulada de prazer e desejo, vou mordendo vagarosa e intrinsecamente as suas costas, saboreando os sentimentos delirantes e furtivos do seu âmago. Sigo levemente para a parte inferior deste desejo onírico, deslizando liricamente os lábios na brancura e maciez natural das suas nádegas: realizando as sublimações psíquicas que me conduzem a pseudo insanidade da ‘irrealidade do verbo estar’.
Realização semelhante obtenho na surreal completude de deitar a língua quente no pequeno coração abaixo de sua virilha, subindo libidinalmente ao centro da sua composição pura e deliciando-me com a permanência dos meus patológicos lábios quentes em meio a umidade saborosa e sublime dos seus...”


rascunhos e recalques

Num copo de cerveja
não há quem não veja
aquele sopro doce:
tua boca, uma cereja.

No descompasso
isento de disfarce
desfibro, desfaço
o salpicado passo.

 Faminta retina
o coração tritura
e o amor, clausura,
despido desatina.